Em busca da Felicidade!

Porque ainda não fui assistir a esse filme?
Por Miguel Garcia e grande elenco!

“Ora, a fé é a prova das coisas que não vemos” - Hebreus 11:1.


Algumas pessoas têm insistido muito para que eu vá ao cinema ver o filme: EM BUSCA DA FELICIDADE com direção de Gabriele Muccino. Estrelando: Will Smith, Jaden Smith, etc.

A Fátima, minha mulher, também tem sido muito incentivada por seus amigos e companheiros: “Olhe, pegue seu maridão e sua filha e vá correndo ver a grande maravilha que é esse filme”, disse um desses recém convertidos à moral da história da aparente “película profética”.

Ainda outros parecem querer sugerir que a mensagem do tal filme seria urgente, necessária e libertadora para nós...

“Todas as pessoas deveriam assistir a esse filme”, foi o brado hercúleo, disparado na direção da Fátima que, à semelhança dos protagonistas desse “oráculo em forma de seqüências de cenas cinematográficas”, também é negra.

Confesso que em um primeiro momento, “a grande novidade” não me deixou muito empolgado, até que recebi o telefonema de um caríssimo amigo que passou a relatar o conteúdo de EM BUSCA DA FELICIDADE, com um entusiasmo e paixão tal, que só se poderia comparar ao do anjo Gabriel na anunciação do nascimento do menino-Deus. Naquele momento comprendi que se não me interasse a respeito do conteúdo de EBDF, só me restaria a clausura em algum mosteiro, voto de silêncio perpétuo, além de conviver com a sensação de culpa por ainda não ter sido redimido e liberto pelas “boas novas de paz e alegria” que, ao que a opinião da maioria indicava, jorravam como torrentes de águas vivas das telas dos cinemas, enquanto maravilhadas, as turbas matizadas iam sendo batizadas nas “novas idéias” e “conceitos elevados” derramadas por esta que é uma das últimas produções da fabulosa indústria cultural do cinema. Isso sem falar na decepção inevitável que sem querer, eu ia infringindo nessas pessoas à medida que elas indagavam: você já assistiu o EBDF? Decepção ou alegria, não sei, talvez minha ignorância criasse a oportunidade para alguns, de poderem suplantar-me enquanto explicavam parte do “precioso conteúdo” dessa “REMA” da sétima arte, e de como a energia vital contida na mesma curaria a mim, minha família e a outros como nós, de uma espécie de inanição psicológica e espiritual, o que certa-mente ostraciza-nos.

Bem, de fato, como é absolutamente desnecessário explicar, não sei de muita coisa, mas desconfiiiiio que é uma beleza! Comecei por suspeitar de tantos e tantos: você precisa ver... você tem que ver... nossa! você ainda não viu?... as pessoas pensam que eu não tenho fé?

Em “viagens virtuais” pela internet, encontrei muitas opiniões, críticas e desconfianças... muitas desconfianças sobre essa “beldade do entretenimento”.

Foi então que aquilo que inicialmente eram incomodas suspeitas, foi tomando timida-mente a forma de crise-nervosa... Passei a imaginar o que é que meus amigos, irmãos e até “orienta-dores” quiseram dizer com seus muitos: “você precisa ver”. Ver o que, para que?

Um amigo queridíssimo contou-me sobre a tal cena do cubo mágico e da Ferrari. Enquanto o ouvia, pensava com meus botões: nossa! Se ele soubesse o quando sou ruim em cálculos matemáticos e afins, que nunca em minha vida consegui montar direito nem um desses quebra-cabeças feitos pra distrair meninos do pré-escolar, e se ao menos desconfiasse que minha mulher só não me abandonou ainda porque tem pena de minha filha, se conseguisse supor que eu morro de medo de ouvir da parte da Fátima um “ti perdôo por ti abandonar” e fui..., e pior, que se eu tivesse que, a exemplo do Chris, com desdém e estupidez, acusar alguém de “fraca”, eu teria que gritar essa palavra olhando num espelho, para minha feminilidade que hoje em dia já nem é mais tão inconsciente assim. Se o meu chapa conjeturasse que não sou aficionado em carros velozes, não entendo nada de corridas automobilísticas, e não consigo diferenciar um carro do outro em transmissões das mesmas, via TV, se ele percebesse..., acho que desligaria o telefone na minha cara, e jamais ligaria para mim outra vez.

Mas afinal, o que em minhas suspeitas, acabou por estimu-lar a minha não ida ao cinema?

Lembrem-se que estou apenas compartilhando idéias a meu ver, não a meu saber – pois não sei de muita coisa, repito. Apenas desconfio de tudo e assim prossigo sempre desconfiado.

Em um texto do Bernardo Krivochein percebi que ele conseguiu “ver” coisas bem diferentes do que aquelas que encheram os “olhos” e algo mais da maioria dos meus friends. O Bernardo já começa chamando “À Procura da Felicidade” de paroquial. E segue derramando uma verdadeira chuva ígnea de considerações, como a de que o filme é mais uma ferramenta de disseminação da mentalidade imperialista norte-americana, sugerindo que a máquina é correta e impecável – caberia ao individuo ser bem-sucedido nela (não a sociedade, mas o indivíduo: princípio do individualismo que melhor movimenta a mercadoria). Insiste que o filme tal qual “Forrest Gump”, vende a idéia de que basta abaixar a cabeça e aceitar o sistema sem debatê-lo, nem confrontá-lo que tudo em sua vida dará certo - síndrome de Complexo de Pollyana. E denuncia que o Chris Gardner não corre contra a corrente, mas a favor dela com o máximo de suas forças, a fim de garantir ao filho uma vida mais digna.

Eis a fala do [ator] Bernardo Krivochein:

“Gardner é o que conhecemos como overachiever. Ele não liga para todos os outros que foram engolidos pelo capitalismo selvagem, nem os que irão ser derrotados por ele. Seu desespero pessoal justifica seu individualismo: ele está pouco se laxando tem gente na mesma meleca, Gardner só quer a chance de poder competir dentro desse mesmo sistema opressor que coloca pais dormindo com seus filhos em banheiros públicos. Dentro das mensagens de superação que emite ao seu rebento, existe uma outra latente de conformação. Mesmo quando tudo parecer perdido, meu filho, continue lutando, pois o sistema está correto, nós é que somos burros de não conseguir fazer sucesso dentro dele, afinal esse é um grande país e blá-blá-blá”. Gardner e sua determinação em superar seus competidores quer mais é se transformar no mesmo tipo de homem que pisa “mêrmo” nos oprimidos, renegando seu curriculum vitae de miserável. Will Smith, o mesmo ator que em carnavais passados deu uma de americano onipotente, tentou invadir a Sapucaí no meio do desfile da Beija-Flor, escorregou enquanto tentava saltar a cerca de contenção e esmagou o saco na barra, soltando um “Oh, my God!” que ecoou pela avenida (Deus castiga...), bloqueia também a possibilidade de revelação para vários outros atores mirins mais necessitados ao escalar seu próprio filho para contracenar com ele. Imperialismo, saravá!

Porque o capitalismo é um sistema muito mais complexo, inteligente e malicioso do que um universi-otário recém-desperto para questões sociais quer acreditar. “(X) é tão desconectado da realidade quanto um protestante francês”, replica a intelligentsia norte-americana para qualquer esboço de desejo transformador com essa expressão padrão. Então, histórias reais como a que inspiram “À Procura da Felicidade” e tantos outros filmes oh-tão-edificantes não são provas da capacidade humana de superação, da coragem, da tenacidade. Muito pelo contrário, são provas da capacidade humana de ser superada. Histórias como a de Chris Gardner são as exceções previstas pelo próprio sistema, a fim de serem espetacularizadas em formatos dramáticos padrões e iludirem platéias inteiras com uma falsa possibilidade de sucesso e ascensão social. Mais gado para o matadouro, platéias saem inspiradas, motivadas, emocionadas e continuam o seu apertar resignado de botões, esperando pela concretização de um sonho imaginado por terceiros.
Para homenagear a inteligência do grande público que elege Clodovil como deputado, mostro aqui que também sei falar de flores: pelo menos, o filme tem a decência de não puxar o coringa da questão racial para justificar a penúria de Gardner e o retrato seco dos EUA de uma certa era Reagan, que colocou a corda no pescoço de muita gente. Mas sua crueza é puramente arquitetônica, pois tem um propósito bem definido de garantir um superficial verniz de veracidade, uma demão a mais nesse conto da carochinha para a classe média, com um pouco mais de pimenta. Na França, protestos contra a lei do primeiro emprego seriam encabeçados por jovens queimando as cópias desse filme em praça pública.

Excluído pelo sucesso de Will Smith, um belíssimo filme corre o risco de passar despercebido. Que “Employee of the Month” foi um fracasso retumbante de bilheteria”.


A essa altura você pode estar se perguntando: pô, mas esse cara nem foi assistir ao filme ainda e já escreveu esse monte de... Se for esse o caso, minha resposta é que: sou um homem de fé meu irmão!

“Ora, a fé é a prova das coisas que não vemos” - Hebreus 11:1.

Que será que meus friends quiseram dizer com o: Você precisa ver...Ver o que? Para que? Para imitar?

Será que se fizer como o Gardner demonstrando insistentemente o “super poder de minhas faculdades mentais”, conseguirei uma vaguinha no mundo, na “igreja” e no coração de meus irmãos nesta “terra de oportunidades”?

“Você precisa ver”... Ver o que? uma fábula neoliberal, que reforça e atualiza os mitos liberais do homem-que-se-faz-sozinho e da igualdade de oportunidades através de uma “história real”?

De repente, a sensação que tenho é que alguns dos meus friends estejam tão confusos e amedrontados com os desafios que vêem pela frente, que num ato desesperado acabam adotando uma fábula-neoliberal como excelente ilustração dos princípios do evangelho, quem sabe aos moldes do legado genial de Paul Tillich, uma espécie de extensão da teologia da cultura.

E assim essa adoção ilegal acaba por aproximá-los, imagino que a contra gosto, cada vez mais, da também i-legal “mensagem” dos bispos e apóstolos neo-liberais-pentecostais. Tanto que o lema por trás da mensagem última do EBDF poderia ser: “cada um por si e o diabo para alguns”.


E agora com vocês a [atriz] CAROL RODRIGUES:

“Um filme típico e previsível... Mas não imagine que o filme critique a cobrança intensa que existe sobre os mais pobres em detrimento da taxação sobre as maiores riquezas. Muito pelo contrário. Como um autêntico libelo liberal, todos no filme, principalmente os mais ricos parecem descontentes com a cobrança exagerada de impostos e até mesmo algumas das ações são impulsionadas pela busca de formas de fugir desse tormento. Inclusive o estágio de Gardner resume-se na venda de planos de previdência privada, cujo maior atrativo é o fato de serem “livres de”. A encarnação do sonho americano.

Em A ideologia Alemã, Marx nos alertava que “as idéias da classe dominante são, em cada época, as idéias dominantes”. Em outras palavras, aqueles que detêm o controle dos meios de produção utilizarão todos os meios de reprodução ideológica – imprensa, igreja, escola, cinema, etc. – para impor ao restante da sociedade suas idéias, representações e conceitos que aparecerão como verdades eternas e de interesse do conjunto de toda a sociedade. Você aprende a tomar consciência de uma realidade falsa.

Além de nosso suor e sangue, a burguesia quer nossas almas. Ver-nos controlados, sabendo o nosso lugar e reduzidos à aclamação e busca de seus ideais e princípios. Seduz-nos com a possibilidade de ascender socialmente e nos tornar vencedores, capazes e competentes. Se você não consegue, o problema está em você e nunca na estrutura social.

Assim é o pressuposto de igualdade entre os homens com o qual Em busca da felicidade trabalha.

Com a autoridade do selo “inspirado numa história real”, ao contar a vida de um personagem que ascende de sem-teto a banqueiro bem-sucedido pelos seus próprios esforços e determinações, o filme reforça e estimula a ideologia neoliberal de que basta um espírito empreendedor individualista e egoísta, independente da conjuntura histórica, para prosperar.

Sucesso desde o lançamento do livro nos Estados Unidos e disputadíssimo pelos estúdios, a vida de Chris Gardner é a encarnação do sonho americano, ou como alguns espectadores estadunidenses ressaltaram em comentários sobre o filme, “é o espírito do modo de vida americano, que fez da América um grande país”.

Se parto do princípio de que existe na realidade um antagonismo claro entre aqueles que são explorados e aqueles que são exploradores e que todos os aparatos de repressão, assim como os meios de reprodução ideológica estão na mão dos exploradores, como podemos acreditar na premissa da igualdade de oportunidades para todos?

Ressalto, inclusive, que apesar de Chris Gardner não ter terminado a faculdade, a todo o momento, como já afirmei, o filme insiste em mostrar o quão inteligente Gardner é, resolvendo, por exemplo, o Cubo Mágico num tempo recorde. Também é o primeiro a terminar a prova final do estágio. Se não fosse tão absolutamente inteligente, teria essas oportunidades?

Além disso, existe uma completa ausência da questão racial no filme. Apesar de se sentir subestimado e subvalorizado pelo gerente do escritório, para o qual fazia favores, em nenhum momento isso é problematizado pelo fato de ele ser negro num programa voltado para brancos.

Em busca da felicidade posta-se como excelente fábula neoliberal, buscando ser histórica e particular, genérica e universal, como bom instrumental ideológico. Com a desculpa narrativa da busca de um pai por manter a salvo seu filho, ele toca e inspira as pessoas, atualizando fábulas cinematográficas mais antigas para um público mais jovem.

Finalmente quando críticos de arte e redatores de jornais demonstram possuir uma percepção, sensibilidade e senso crítico, superando até mesmo os “profetas” de Deus, enquanto um montão de gororoba mal cozida e empelotada é Macdonizada-mente propagandeada, distribuída e consumida como se fosse o melhor de um cardápio de idéias, valores, princípios e ideologias, começo nova-mente a sentir um forte desejo de freqüentar reuniões semanais em uma mesquita muçulmana que descobri recentemente aqui, bem pertinho de casa...

Acho que é isso!

Se não for a gente corrégi!
Miguel Garcia

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