Inquisição High Tech

Em tempos de internet qualquer um faz blog e arrasa a imagem e caminhada de alguém em tempo real. Os tempos mudaram, mas a vileza é igual ao período da inquisição. Lá se faziam denuncias anônimas, falsos testemunhos, manipulações vis, trechos de fala fora do contexto, e, imediatamente, os defensores da reta doutrina colocavam o herege na fogueira. Fácil, simples e rápido.
Os Torquemadas internautas do momento entendem de teologia tanto quanto sindicalista entende de marxismo, mas são rápidos. Afirmam, denunciam, decretam, difamam, mentem, manipulam. E têm certeza. Então, pronto, o Gondim é herege e será queimado nesta fogueira high tech, porque os augustos inquisidores do presente não têm dúvidas.
O Gondim publicou um livro recentemente, "Creio, mas tenho dúvidas". O que é isso? Desde quando um homem de Deus pode ter dúvidas? Como um pastor líder, influente pode admitir que, às vezes, fica temeroso, não sabe o suficiente, tem medos e vontade de desistir? Deveria publicar algo como " Creio, por isso fiquei rico" – poderia até ser mentira, mas seria mais convincente do que ter dúvidas. Dúvida é coisa de fraco, gente comum, que sabe de seus limites e fica com esta história de depender de Deus. O Gondim tinha que ser poderoso, decretar vitória financeira, amarrar os demônios da dúvidas e dívidas. Tinha que vender – e se vender – a idéia de alguém forte, com convicções inabaláveis. Poderia até roubar, mentir, adulterar ou manipular, mas ter dúvidas é demais. O Gondim está parecendo um individuo que foi preso, não por ter muito dinheiro não declarado, mas por ter feito criticas ao poder, e, com dúvidas, mandou seus discípulos perguntarem a Jesus se ele era ele mesmo ou se havia de esperar outro. Logo esse homem que havia visto e ouvido uma manifestação divina no momento em que batizara Jesus. Coisa feia, ter dúvidas sobre Jesus. É, como este outro, o Gondim deve ser mesmo um herege.
Essa mania de ler e se dizer inspirado por Martin L. King, Bonhoeffer, Madre Teresa de Calcutá é uma heresia. Talvez se lesse e se inspirasse naquele famoso que tem técnica infalível (para ele) de ganhar dinheiro; ou da outra que entende tudo sobre demônios e suas manipulações (mas sabe tanto, que é capaz de enganar até diabo), ou de gente que, apesar de ter 108 processos na justiça, continua fazendo milagres na rádio, ou de muitos que fazem parte de sociedades secretas, ou aquela que só prega cura, mas quando adoece se interna escondida. Mas falar desses indivíduos. King era um negro subversivo, Bonhoeffer se levantou contra o governo e a Madre viveu a vida toda envolvida com pobres. Todos eles tiveram problemas com suas igrejas, por isso não são boas companhias. Essas "coisas de negro" são do diabo, é melhor se informar com o pessoal que lida com batalha espiritual; ser contra o governo é pecado e, para piorar, gostar de pobre? Pobreza não é maldição?
O Gondim não decreta cura, mas se solidariza com o doente; não bajula os ricos, mas fala da dignidade dos pobres; não abre o púlpito de sua igreja para testemunhos dos ex alguma coisa que agora, ricos e famosos, estão ganhando muito dinheiro; não convida cantores/as gospel para fazer shows e dividir a bilheteria; não apresenta jogadores, apresentadores de tv e artistas quando vão em sua igreja, mas os deixa sentados lá no meio da multidão. É por isso que sua igreja não tem ninguém famoso e rico para lhe dá credibilidade.
Quando está aqui no escritório da igreja, na hora do almoço, senta junto na mesa – na mesma mesa – com a secretaria, o técnico do som, o estagiário, o zelador. E come a mesma comida. Aliás, todos os pastores aqui sentam na mesma mesa e comem da mesma comida, coisa mais herética. Ao término do culto, o Gondim fica falando, apertando a mão, abraçando e beijando todo mundo. Homens, mulheres e crianças. Não existe um limite, ou mesmo uma diferenciação; é um troço assim sem reverência. É tudo igual. O Gondim devia saber o seu lugar e mandar seus guardas costas manter as pessoas longes. Ah, ele não tem guarda-costas? Então é por isso, é um herege.
E deve mesmo estar em pecado, por que depois de 24 anos de dedicação, como pastor presidente de uma igreja, não tem mansão na praia, não anda de helicóptero, não vacas nem haras, não tem nenhuma rádio ou tv em seu nome ou de sua mulher, e todos os prédios de sua denominação estão em nome da igreja – que heresia. Definitivamente não é um bom modelo de prosperidade. Ele diz ter tem muitas dúvidas, mas as pessoas querem certeza; fala de amor, mas o povo quer mesmo é poder; está sempre lembrando da dignidade humana, mas o importante mesmo é dinheiro. Seu discurso não condiz com nosso tempo e o interesse do momento, nada mais herético.
Trabalho com o Gondim há anos e já tive desentendimentos com ele e sua mulher – tive no passado e, provavelmente, teremos no futuro. Mesmo assim estamos juntos. Como? Conversamos e, em esforço mútuo e por amor da obra de Deus, continuamos bem. Parece simples, mas não é. Onde já se viu em uma instituição eclesiástica um auxiliar ter problemas com o chefe e sua esposa e continuar servindo? Desde quando um obreiro discrepa – com razão ou sem razão – do líder chefe e não é excomungado? Pode alguém questionar o pastor presidente e, mesmo assim, escapar vivo e prosseguir seu ministério? É, o Gondim deve ser mesmo um herege, pois faz coisas que nenhum religioso faz.
Agora uma dissidência distorce fatos, faz piquetes, publica sites anônimos com calúnias – aliás, tudo muito cristão e fidelíssimamente bíblico. Um grupo legalista e ansioso pelo poder que usa, cinicamente, uma desculpa teológica como justifica para o escândalo e o Gondim e seus seguidores é quem são os hereges. É ele é herege, porque não controlou com mão de ferro o caixa da igreja para manter todos dependentes dele. Deu-lhes independência e autonomia para gerir as finanças de suas igrejas locais; também não os obrigou, como soldadinhos de chumbo, a falar e repetir, sem pensar, as mesmas frases, usar as mesmas roupas, ter os mesmos cacoetes. Acreditava que simplesmente ensinando, pensando, discutindo, debatendo idéias ou trocando impressões, conseguiria formar uma igreja de gente pensante e sadia. A natureza opiácea da religião pede manipulação; necessita umbilicalmente de dependência fisiológica; misticamente precisa de efeitos mágicos. Religioso, por natureza, é um doente. E adoecido transpõe suas mazelas para os outros.
No país de Macunaíma não devíamos nos admirar de mais nada, mas os meandros religiosos se superam. Uma nota em um jornal informa que o Pr. Ricardo e seus seguidores, estão sendo desligados por não serem corretos teologicamente. Tudo manipulação de um grupo, mas a nota é assinada por uma família. É piada pronta.
A sina do Gondim herege é antiga. Adolescente membro de uma tradicional família católica e de militância de esquerda, o pai fora preso na ditadura e a mãe artista plástica e feminista, quando se converteu virou herege na família. Jovem universitário na ABU, em um grupo de oração foi batizado com o Espírito Santo, se torna herege na Presbiteriana. Em 1981, seu amigo Ademir Siqueira inicia uma congregação da Assembléia de Deus que mais tarde se tornaria Igreja Betesda, mas morre meses depois e é substituído pelo Gondim. Ambos, por não seguirem os legalismos assembleianos, se tornam hereges na Assembléia Deus. Foram muitas as acusações usadas na época, a mais comum e publicável era "igreja dos desviados". Dentre as mais folclóricas, a Betesda tinha a "marca da besta", no caso o retro projetor – o cúmulo de modernidade evangélica na época. A família Siqueira sabe o quanto sofreu na época por ver o Ademir ser caluniado.
Anos depois, Gondim se posiciona contra a teologia da prosperidade. E ele deve ser mesmo herege, pois a teologia da prosperidade vence a cada dia. Depois é contra a Guerra do Iraque, Bush e corriola, o Gondim novamente perdeu, pois a guerra aconteceu e o Bush foi reeleito. Escândalo maior veio quando escreveu " É Proibido. O que a igreja condena e a Bíblia permite". Aconteceu até solenidade no púlpito de uma igreja em que o livro foi rasgado. Gondim perdeu de novo, pois hoje a igreja não proíbe mais nada. Perdão, como nos tempos medievais, ainda existe algo proibido na igreja: é proibido pensar.

Gedeon Freire

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